Carnaval fora de época

12fev10

Suponha que José Roberto Arruda, governador afastado do Distrito Federal, estivesse sendo investigado não por formação de quadrilha, peculato, corrupção ativa, corrupção passiva, fraude a licitação, crime eleitoral e crime tributário, mas por um esquema de tráfico de drogas.

Com essa suposição em mente, vamos relembrar o caso Arruda.

Um governador responde a um inquérito no Superior Tribunal de Justiça.

Esse governador tenta corromper uma testemunha.

O Ministério Público pede a prisão do político, por tentativa de atrapalhar as investigações.

Um ministro do STJ concorda, mas para que sua decisão tenha mais legitimidade, ele habilmente a submete aos colegas.

O colegiado concorda. A Polícia Federal prende o governador.

Ato contínuo, a defesa do governador entra com um habeas-corpus no Supremo Tribunal Federal.

Diante dessa conjuntura rara (evidências fortíssimas do crime, tentativa de atrapalhar as investigações, decisão colegiada da Corte nacional, pressão da opinião pública), o ministro responsável por analisar o caso no STF nega o HC e mantém o governador na prisão.

O fato é um marco, um divisor de águas no combate ao tráfico de drogas? Não, de maneira alguma.

O cara não foi preso pelo crime pelo qual está sendo investigado. Ele foi preso por atrapalhar as investigações. A detenção não tem qualquer relação com a natureza do crime praticado.

Poderia ser tráfico de drogas, pedofilia, homicídio, exploração de jogos de bingo. Ainda assim o governador teria sido preso.

Por enquanto, a quase certa roubalheira ocorrida no governo do DF não transformou o governador afastado sequer em réu.

A festa pela detenção do Arruda tem relação com nossas raízes católicas. Ao pecador, é necessária uma punição.

É claro que o moço tinha que ser detido mesmo, mas para a sociedade o importante é recuperar o dinheiro roubado. Neste momento, a pobreza toma conta das periferias de Brasília. Muita gente está na fila de hospitais, está caminhando por ruas sem segurança.

O dinheiro que devia ter sido investido na sáude ou na segurança pública continua nos bolsos, bolsas, meias e cuecas de alguns.

A prisão de Arruda não levou a um imediato ressarcimento aos cofres públicos.

Se o Arruda e outros permanecerem presos, se os empresários corruptores vierem a ter o mesmo destino, se os recursos roubados forem rapidamente recuperados para os cofres do Distrito Federal, aí sim teremos um marco na luta anticorrupção. Mas apenas na faceta repressiva. Ainda faltará abordar a prevenção.

Sim, o fato de um governador ter ido à cadeia e ter lá permanecido quer dizer algumas coisas. Significa que algumas instituições funcionaram bem (Ministério Público Federal e Superior Tribunal de Justiça). Significa que a sociedade civil foi ouvida.

Mas uma comemoração exaltada é Canaval fora de época.



One Response to “Carnaval fora de época”

  1. eh isso ai


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