Duas pauladas e um apelo

15jul09

A corrupção tem várias formas de operar. Uma delas é a captura do Estado. Isso se dá quando grupos que professam interesses pouco republicanos se apropriam de postos-chaves dos governos.

Medidas anti-corrupção têm diversas formas de operar. Uma delas é a existência de órgãos que funcionem como contrapeso a outros.

Pois numa só semana ocorrem no Brasil duas péssimas medidas:

Uma que deve abrir brechas para a captura da Receita Federal.

E outra que fragiliza o Tribunal de Contas da União, que vem fazendo um bom trabalho no que diz respeito a fiscalização de obras públicas.

Alguns (poucos) relatos da Imprensa indicam que Lina Vieira, que está de saída da chefia da Receita Federal, foi fritada porque se contrapôs a certos interesses.

  1. A moça teria barrado indicações políticas (leia a nota “Briga feroz“) e
  2. Impôs à Petrobras uma multa pesada por conta de uma manobra contábil alegadamente ilegal.

No que diz respeito ao Tribunal de Contas, não são poucos os que lutam por fragizá-lo. Agora, estão perto de vencer mais uma batalha. A Lei de Diretrizes Orçamentárias que está prestes a ser aprovada muda os preços máximos que o governo deve pagar por itens constantes em obras.

Dicas para jornalistas

Como disse alguém certa vez: “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos & molhados”.

Cabe aos veículos de comunicação evitar o declaratório e levar ao público as razões pelas quais estão demitindo a secretária da Receita Federal antes de a moça completar um ano no cargo. Algo muito errado (ou muito certo) ela fez.

Nesse sentido, seria interessante o jornalista manter em suas anotações tudo o que se relaciona ao chefe da Receita Federal. Pelos menos o chefe (não só da Receita, evidentemente).

Sobre como montar e manter base de dados, sugiro dar uma olhada neste post do blog Novo em Folha.

No caso da LDO, faz tempo que a Imprensa precisa compreender que o acompanhamento do processo orçamentário é algo fundamental para o combate à corrupção.

E esse processo não é tão complicado assim (aliás, desconfie quando alguém disser que “isso tudo é muito complicado”; geralmente as pessoas fazem isso para evitar que jornalistas acompanhem mais de perto).

Jornalista não precisa descer aos conceitos técnicos. Basta entender o que é LDO, o que é LOA (Lei de Orçamento Anual) e compreender os processos de execução orçamentária.

No Portal do Senado (veja você…) tem uma explicação básica disso tudo.

Apelo aos lulistas

Isso tudo não quer dizer que o atual governo é mais favorável à corrupção que os anteriores. Por justiça, diga-se que o governo Lula, principalmente por meio da CGU (Controladoria-Geral da União), adotou práticas reconhecidamente eficazes contra a corrupção.

Mas esse fato não deve levar a Imprensa a silenciar quando o governo federal faz lambança.

Penso que especialmente os famosos jornalistas e blogueiros identificados como defensores de Lula (defesa muitas vezes justa, diga-se) deveriam apontar os erros do governo.

Se Paulo Henrique Amorim e Luis Nassif, por exemplo, apontarem os problemas do governo Lula no combate à corrupção, toda a sociedade brasileira vai ganhar.

Infelizmente, criou-se um Fla x Flu midiático insuportável no Brasil.

Há veículos e blogs que são lidos/ouvidos/vistos/repercutidos só por torcedores de um time. A torcida adversária vê/lê/ouve/repercute outros veículos e blogs.

E uns criticam os outros, na maioria das vezes sem ler.

O barulho das buzinas e dos fogos de artifício impede a compreensão racional dos problemas.

E os corruptos adoram quando tem muito barulho e pouca compreensão.

Por isso, um apelo aos lulistas:

Elogiem o presidente. Ele merece. Mas não deixem de criticá-lo quando ele merecer.



6 Responses to “Duas pauladas e um apelo”

  1. 1 Emerson

    O Nassif tenta mostrar os erros do governo. Mas muito mais os erros de condução da política econômica que corrupção. PHA eu não leio. E imprensa, digamos, industrial, eu só leio manchetes. FSP, Globo, Veja e outros menos cotados perderam qualquer valor como fontes confiáveis de qualquer coisa pra mim, de política e futebol a ciência e comportamento.

  2. A frase “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos & molhados” é de Millôr Fernandes.

  3. 3 RC

    A frase, como a maioria das frases do Millôr, é muito boa, mas não resiste a uma análise mais objetiva. Imprensa não é oposição: é observação, postura crítica, objetividade e todos os outros lugares-comuns. Essa idéia de que imprensa é oposição (quando lhe convém) é que tornou legítima uma postura que ultrapassa os limites da ética, do compromisso com a verdade, em nome de um bem maior (a oposição). Sobre as medidas, infelizmente, é muito difícil para os de fora entender de verdade o que houve na Receita. Em relação ao TCU, some-se o fato de que, com as nomeações da forma que são feitas, não se precisa de muito para enfraquecê-lo.

    • 4 Fabiano Angélico

      Como todas as frases do Millôr, essa não deve ser levada muito a sério. Agora, é papel da Imprensa fiscalizar, sim. Os governos detêm variados meios de transmitir suas mensagens. A Imprensa tem que ser contrapor a isso. Levando em conta, é claro, os limites que você menciona.
      Sobre a Receita: de fato, é difícil para os de fora entender. Mas é para isso que serve o Jornalismo, não? Para produzir informações que devem ser compartilhadas socialmente e informações que as pessoas, isoladamente, não têm condições de acessar. A questão fiscal é muito importante num país em que os governos falham em prover serviços. Em todos os países, a classe média e os de cima reclamam de pagar impostos. Portanto, há uma pressão por menos impostos e ao mesmo tempo por melhores serviços. A Imprensa precisa meter-se mais nessa discussão.
      Quanto ao TCU, discordo. Claro que a maioria dos conselheiros são indicados politicamente. Mas criou-se um quadro técnico tão eficiente que muitas vezes os conselheiros são forçados a seguir as recomendações técnicas, já que negar ilicitudes tão bem descritas teria ônus.

  4. A grande verdade é que reina um clima de patrulhamento ideológico. Até parece que existe um ´Index´de veículos e blogs que ´podem ser vistos´ e outros tantos que ´não devem ser levados em consideração´.

    Recordo uma experiência recente no Twitter quando dei Retweet de ´@Miriam LeitaoCom´e um dos meus seguidores logo veio com um recriminador : ´vem cá , você acredita nela?´

  5. 6 Tiago meireles

    O “apelo aos lulistas” eh justo, mas soa piegas se estudar o passado dos envolvidos, principalmente pha (follow de money). Ele, junto com nassif e o “finado” mino carta seguiam uma ação orquestrada, o que era obvio pra quem nao torce p nenhum dos 2 times e le das 2 fontes.
    Em tempo, leio tto nassif/mainardi, veja/cartacapital.


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