Rio 2016 e o silêncio da imprensa

14jun09

Na última sexta-feira fui entrevistado pelo simpático e bem-informado Wanderley Nogueira na Jovem Pan. A íntegra da entrevista está aqui (favor não botar reparo nos trajes mal ajambrados deste que vos escreve; o idiota aqui não sabia que haveria imagens e foi ao estúdio vestido como quem vai à padaria da esquina…).

O tema da entrevista era a Copa de 2014, mas falamos bastante sobre o Pan do Rio, em 2007, evento que serviu de laboratório para a Copa do Mundo, no que se refere ao uso/abuso de dinheiro público.

O estouro no orçamento foi impressionante. Foram várias as previsões, mas vamos pegar duas para compará-las: em agosto de 2002, a previsão era de que a bucha para os cofres públicos ficaria em R$ 400 milhões, mas em fevereiro de 2007 esse montante foi para R$ 3,5 bilhões.

Isso é dinheiro em qualquer lugar do mundo.

Porém, comentei com o Wanderley que a evolução da participação do Governo Federal no rateio da conta foi tão impressionante quanto os vultuosos montantes e as irreais estimativas.

Em princípio, a maior fatia da conta seria paga pela Prefeitura do Rio. Porém, no final das contas, isso ficou pra União. Ou seja: pesou no bolso de todos os brasileiros.

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Foto: Wilson Dias/ABr

Reproduzo trecho de acórdão do Tribunal de Contas da União sobre os gastos do Pan:

O Dossiê da Candidatura, apresentado pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro em agosto de 2002, estimou o gasto dos Jogos Pan-americanos em US$ 186.297.616,00 (cento e oitenta e seis milhões, duzentos e noventa e sete mil, seiscentos e dezesseis dólares).  Nesta estimativa caberia ao Governo Federal financiar 22,20% do total.  A Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro continuava com a maior parcela de responsabilidadee, equivalente à 46,22% do gasto estimado

Eis outro trecho, o que menciona uma tal “Carta de Acordo”, que definiu a “matriz de responsabilidades”. Esse documento foi assinado em fevereiro de 2007, cinco meses antes do inicio do Pan:

“A participação do Governo Federal mais uma vez aumentou para 50,60% do valor total, enquanto a da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro diminuiu mais ainda passando para 33,65%”

Traduzindo: na hora de fechar a conta, entrou uma parcela muito grande de dinheiro que não era de contribuintes do Rio, mas de maranhanses, piauienses, alagoanos…

Ainda estava eu considerando essas coisas quando leio que o prefeito do Rio de Janeiro e o governador do Estado estarão esta semana na Suíça para a última fase de apresentações técnicas das candidatas às Olimpíadas de 2016.

O Rio de Janeiro é uma das cidades finalistas. As concorrentes são Chicago, Madri e Tóquio. O vencedor será anunciado em outubro deste ano.

Quer dizer: a cidade fez um papelão no Pan, mas pode ser presenteada com os Jogos Olímpicos.

E sso tudo acontece sem grandes questionamentos da imprensa… o já citado relatório do TCU foi divulgado em setembro de 2008. Há 9 meses, portanto.

Mas eu não li nenhuma reportagem mais aprofundada sobre os achados do TCU.

Deixo abaixo outros trechos do acórdão do TCU (tem alguns grifos, todos meus).

São dicas, em particular para a imprensa do Rio, na hora de montar pautas para cobrir essa viagem do prefeito Eduardo Paes e do governador Sérgio Cabral.

17. O documento, elaborado a partir do consenso entre Município, Estado e Governo Federal, estabeleceu a responsabilidade de cada uma das esferas no financiamento e execução das ações a serem realizadas. Esse pode ser considerado o mais importante passo para a concretização dos Jogos. É lamentável que tenha sido elaborado em fase tão avançada dos trabalhos. Se tivesse sido diferente, alguns obstáculos poderiam ter sido mais facilmente superados.

18. Ao longo da preparação para os Jogos Pan-americanos, quando a matriz ainda não havia sido definida, observou-se uma relutância dos envolvidos em cumprir compromissos assumidos anteriormente, o que levou o Governo Federal a intervir, elevando, de forma contínua, sua participação no rateio das despesas.

19. Esse mecanismo de transferência de responsabilidades revelou-se duplamente danoso.

20. Por um lado, a necessidade de preservar a imagem do País, obrigou a União a assumir gastos sempre que necessário. Essa percepção de segurança garantida pelo aporte de recursos federais pode ter retirado dos outros entes a dedicação necessária em alocar parcela de seus orçamentos ao empreendimento, agravando o fenômeno.

21. De outra parte, a assunção dos compromissos de um ente por outro geralmente ocorreu com perda de tempo precioso ou gerou situações inadequadas do ponto de vista do controle do gasto público, como o repasse de recurso para obras em curso ou já executadas.

22. A imagem da série de problemas sofridos nesta área deve permanecer como lição para futuros eventos de igual natureza, a exemplo da Copa do Mundo de 2014 ou, quem sabe, as Olimpíadas de 2016.



2 Responses to “Rio 2016 e o silêncio da imprensa”

  1. 1 carlos antonio dos santos

    brasil, mostra sua cara!

  2. Agora é hora do povo brasileiro provar seu valor no planejamento e construção da vila olímpica. O futuro de nossa credibilidade internacional depende disto. Falhar não é uma opção!


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