As melhores da semana

11maio09

Fiz um top-10 das melhores matérias jornalísticas sobre corrupção e integridade do Estado publicadas na imprensa brasileira na semana passada (entre sábado,2, e sexta-feira, 8).

Foi difícil escolher 10, viu. Não há investigação no jornalismo brasileiro, incrivelmente.

Em geral, as novidades só aparecem quando algum órgão (Tribunal de Contas, Ministério Público) detecta problemas.

Após apontar as matérias, coloco algumas observações sobre seus problemas.

O critério, então, foi a relevância da pauta.

Os jornais trouxeram na semana passada uma boa quantidade de matérias que envolviam a transparência nos Parlamentos brasileiros.  É a consequência benéfica dessa onda de denúncias levadas ao palco pela imprensa.

Nesta categoria entram 4 do top-10:

Prefeituras fora da internet
Estado de Minas (MG) –
Bertha Maakaroun

A Bertha nos conta que  mais de 550 cidades mineiras não têm página na internet.

Importante no contexto da Lei Capiberibe, aprovada semana passada na Câmara. O texto — que só precisa da assinatura do Lula pra virar lei — obriga União, Estados e municípios a prestar conta dos gastos que realizam (leia mais sobre isso no blog do diretor executivo da Transparência Brasil, Claudio Weber Abramo).

Deputados adiam transparência
Correio Braziliense (DF) – Lilian Tahan

Câmara Legislativa do Distrito Federal resiste em dar publicidade ao uso da verba indenizatória. Se há tanta resistência, haverá de ter malfeito aí.

Essa resistência explica porque a CL-DF é a segunda Casa legislativa mais custosa ao contribuinte, em termos de custo por parlamentar, de acordo com levantamento que fizemos no início do ano.

Um deputado distrital custa aos cofres do DF R$ 15,2 milhões ao ano. Só o senador é mais oneroso (R$ 33,8 milhões/ano).

Câmara reduz prazo para deputado prestar conta
Folha de S.Paulo (SP) – Fernando Rodrigues

O sempre atento Fernando Rodrigues aponta um aspecto ao qual pouca gente prestou atenção: o prazo para os deputados federais prestarem contas de seus gastos com verba indenizatória.

Carijó promete manter gastos no site da CMM
Diário do Amazonas (AM) –
Cinthia Guimarães

Presidente da Câmara de Manaus disse estar sofrendo pressão dos colegas para retirar da Internet os dados sobre gastos com verba indeniztória.

“Os parlamentares reclamaram a Carijó da exposição dos gastos na mídia que revelou o uso da verba indenizatória para pagar banquetes”

Sensacional!

Outra boa matéria que tem relação com transparência é esta:

Investigação inclui corregedor da Câmara
O Estado de S.Paulo (SP) – Eduardo Reina, Bruno Tavares e Diego Zanchetta

O corregedor da Câmara de São Paulo, Wadih Mutran, é um dos investigados por ter recebido doação ilegal em 2008.

E por que isso tem relação com transparência? É que os dados sobre doadores de campanha são tornados públicos pelo TSE. Não fosse isso, seria muito difícil detectar que uma associção que representa interesses do setor imobiliário repassou R$ 6,5 milhões a campanhas diversas no ano passado.

E não é que poucos meses depois os vereadores paulistanos tiram do fraque um projeto chamado “Nova Luz”, que visa a “revitalizar” o centro velho de São Paulo (e possivelmente recuperar o investimento do setor nas campanhas)

Apesar da relevância da matéria do Estadão, destacando que o corregedor (ou seja: o cara que deveria defender os bons modos na Casa) é um dos investigados, faltou uma matéria sobre o sumiço do vereador Milton Leite.

A matéria do Estadão menciona o fato de que o Milton Leite, relator do caso Ushitaro Kamia (o vereador paulistano que ocultou ter um “palacete imperial”), pediu licença médica justo no dia em que deveria apresentar seu relatório.

Pior: nesse mesmo dia Milton Leite foi visto em eventos públicos, ao lado de Kassab e Serra.

Esse Milton Leite tem seu “reduto” na região do M’Boi Mirim. Eu tenho familiares que moram ali. Um primo meu me disse que esse Milton Leite é um baita comprador de votos. E que ele enganou a população da região em 2006, quando elegeu deputado estadual o pimpolho Milton Leite Filho.

Diz esse meu primo que o pai é que fazia campanha e nem mencionava o nome do filho. A galera elegeu o garoto pensando estar votando no Milton Pai.

Vá à ficha do Milton Leite Filho no projeto Excelências e veja a quantidade de projetos irrelevantes do filhão na Assembléia Legislativa de São Paulo.

Esse caso do Milton Leite nos leva a uma matéria sobre compra de votos, envolvendo um vereador de João Pessoa.

Não perca a conta, esta é a sexta:

Testemunhas confirmam ligação de ‘Votinho de Ouro’ com Felipe Leitão
Jornal da Paraíba (PB) – Adja Brito

A compra de votos é um dos fenômeno mais complicados ligados à corrupção. Estudos sobre o tema ainda estão tentando entender como se dá essa relação patrão-atravessador-cliente. É uma relação que pode ser vista como legítima pelos vendedores dos votos. É um bom tema, que fica para outro post.

Mas “Votinho de Ouro” é ótimo, né não?

A sétima matéria que destaco é esta:

Operação abafa ganha reforço da oposição
O Estado de S.Paulo (SP) – Eugênia Lopes

Pauta fundamental. Boa matéria, mas poderia ter ido mais longe.

Acompanhei pelo noticiario a disputa pela Presidência do Senado, ocorrida em janeiro/fevereiro. Analistas disseram que o Tião Vianna só perdeu a Presidência para o José Sarney porque o petista falou que iria demitir o Agaciel Maia (na época ainda diretor-geral).

Falta agora a imprensa ir atrás desses aliados do Agaciel entre os senadores.

Por falar em senadores, olha o Sir Ney aí:

Elga vira assessora especial de Sarney
O Globo (RJ) – Adriana Vasconcelos

Essa moça aí, apesar de ser funcionária do Senado, trabalhou nas últimas campanhas eleitorais.

Demitida da secretaria de Comunicação da Casa, depois que a notícia foi à luz, a tal da Elga foi acomodada pelo Sarney.

A prerrogativa desses caras de nomear gente a torto a direito, gente que vai receber salário pago com o nosso dindin, é uma das principais causas da corrupção e ao mesmo tempo da irrelevância do Legislativo (para ler mais sobre isso, vá ao blog do Claudio Weber Abramo)

Esse estado de coisas (arbitrariedade na nomeação de cargos, compra de votos, falta de transparência) cria um ambiente propício ao surgimento de figuras como esta:

Wallace diz que o dinheiro apreendido era de economias
Diário do Amazonas (AM) – Paula Litaiff e Valmir Lima

Na casa do deputado estadual Wallace Souza foram encontados muito dinheiro, armas e munição.

O cara já contou duas versões pra tentar se explicar.

Esse cenário de descaso com a função pública leva a situações de pobreza. O dinheiro que deveria servir para dar um mínimo de dignidade às pessoas é desviado.

Como se sabe, o Brasil tem um programa de transferência de rendas para minorar esses sofrimentos.

É um programa que atinge mais de 50 milhões de pessoas.

Por isso, é pauta obrigatória. É incrível como a imprensa brasileira cobre pouco o Bolsa Família, no que diz respeito à integridade do programa.

Por ser uma pauta fundamental, o último dos top-10 vai para o Bolsa Família

TCU flagra 577 políticos com Bolsa
O Globo (RJ) – Demétrio Weber

O Bolsa Família é um dos programas de transferencia de renda mais interessantes do mundo, desperta a atenção de estudiosos de várias regiões.

Um dos aspectos que diferencia o Bolsa Família de programas clientelistas é seu relativamente alto grau de transparência. Qualquer pessoa pode consultar os beneficiários do programa.

Entretanto, falta colocar o nome do CPF dos beneficíarios nesse sítio aí. Com esse dado, poderíamos apontar gente que recebe indevidamente.

É isso, por hoje. Pretendo fazer esse top-10 todas as semanas. Vamos ver se consigo.



2 Responses to “As melhores da semana”

  1. Muito bom, Fabiano. Ótimo resumo semanal. Tinha visto algumas dessas notícias, mas algumas são novidade. Haja tempo para ficar sabendo de todas as picaretagens nacionais.

    Eu te desafio depois a fazer um acompanhamento de quantas dessas matérias trouxeram resultados concretos. A denúncia virou inquérito? O inquérito foi julgado? O julgamento condenou? A condenação foi aplicada?

  2. 2 RC

    Excelente iniciativa, principalmente pelo reconhecimento às matérias “regionais” (leia-se “fora do eixo DF-RJ-SP”). Se me permite um comentário, acho que uma das grandes cupadas pela escassez de matérias investigativas sem o impulso inicial de órgãos de controle (TCU, CGU, MPU) é o desinteresse dos jornalistas por aspectos menos impactantes, que, porém, poderiam render excelentes matérias. Os jornais (lato sensu) só querem as “bombas”, por isso não procuram os pequenos deslizes, mais fáceis de apurar sem apoio técnico-institucional. Talvez achem que as coisas pequenas sejam menos importantes, quando, na verdade, são sintomáticas de todas as grandes mazelas do país. Outro problema, e aí talvez entre a falta de apoio das empresas, é o desconhecimento de questões básicas da administração pública, como orçamento, licitações, leis de transparência e acesso à informação, etc.


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