Era Fujimori: “Por Dios, por la Plata”

08abr09

Após duas semanas no Chile, onde cumpri uma das sessões presenciais da minha pós-graduação em Transparência, Accountability e Combate à Corrupção,  tenho várias idéias para posts, e os dedos coçam. Tentarei colocar algumas dessas discussões aqui, nos próximos dias.

Comecemos por um assunto quente: Alberto Fujimori, que governou o Peru de 1990 a 2000, foi condenado a 25 anos de cadeia.O japa (sim, uma jornalista comprovou que ele nasceu em uma ilha japonesa e chegou ao Peru quando já tinha alguns dias de vida) foi condenado por algumas matanças.

(Se você quer se familiarizar com o caso, visite esta página do Centro Internacional para Justiça Transacional. Como descreveu a amiga colombiana que me enviou o link: é um manual para dummies. Explica o caso tintim por tintim, como se fosse escrito para um leitor de 6 anos de idade.)

 

by-stephen-stacey

 

A condenação de Fuji, inédita na América Latina (é a primeira vez que um presidente eleito democraticamente na região é condenado em seu próprio país por violação de direitos humanos), emocionou meu colega Jaime Márquez, coordenador de projetos de uma ONG peruana:

“Iba escuchando el fallo mientras manejaba y la verdad…me emocioné mucho pensando en còmo se sentían en esos momentos las madres, viudas y demás familiares de los estudiantes asesinados en La Cantuta y de muchas otras víctimas de violaciones a los derechos humanos en el Perú” (“fallo” significa decisão judicial).

Assim prossegue Jaime:

“El día que vimos aquel vídeo sobre la corrupción me sentí un poco avergonzado de todo lo acontecido durante esos años, hoy me siento orgulloso de que el poder Judicial dictara este histórico fallo”.

O vídeo a que se refere Jaime é “Poderoso Cabellero”, documentário que aborda os anos Fujimori-Montesinos e que nos foi apresentado semana passada em uma aula em Santiago. Vladimiro Montesinos foi o braço direito de Fujimori e tinha o estranho hábito de filmar os subornos e atos de corrupção em que se envolvia.

Em um trecho deste documentário, vê-se um deputado tomando posse. No lugar de “por Dios, por la Patria” (“por Deus, pela Pátria“) saiu “Por Diós, por la Plata” (“por Deus, pela grana”). Tá no YouTube. Veja e morra de rir.

Gostei muito de “Poderoso Caballero” principalmente porque em vários trechos o documentário dialoga, por meio da trilha sonora, com o clássico de Stanley Kubrick “Laranja Mecânica“. Quem ainda não viu este classicão obrigatório bom sujeito não é. O filme de Kubrick conta a história de um rapaz extrememante violento (Malcolm McDowell, masgistral), que deixa de sê-lo devido a práticas pouco ortodoxas de lavagem de cérebro por parte do Estado. Práticas que combinam violência física com exibição de vídeos.

Ou seja, mais ou menos o que Fujimori fez: violência extremada (a pretexto de combater o grupo guerrilheiro Sendero Luminoso) e exibição editada de vídeos (já que o governo peruano dominava os meios de comunicação em massa, principalmente a TV).

(Aliás, meus colegas peruanos disseram que altos empresários e importantes políticos da Era Fujimori sofreram sanções, mas os donos de TV, que também foram flagrados em vídeos de Montesinos, escaparam…. É, a questão da democratização dos meios de comunicação pega em todos os países.)

Mas todos os parágrafos anteriores tinham como objetivo preparar o terreno para o que eu queria destacar: como herança dos anos Fujimori, o Peru alcançou dois feitos importantes: foi criada uma lei de aceso à informação pública e também foi instaurado um subsistema judicial de combate à corrupção, que dá mais celeridade ao combate a esses malfeitos com a plata pública.

A lei de acesso à informação foi criada no início da década (2002 ) no Peru. Cá em Pindorama, a década já está pra se acabar e nós ainda estamos atrás de regulamentar o acesso a dados públicos.

Outra resposta aos anos Fujimori, o Subsistema Anticorrupção peruano, com 6 juizados especiais, também é um feito com o qual o Brasil tem a aprender.

Àqueles que se interessarem pelo tema, poso enviar a apresentação, em power point, do advogado peruano Ernesto de la Jara, fundador do Instituo de Defensa Legal. Foi ele quem nos explicou as medidas anticorrupção adotadas no Peru pós-Fuji.



One Response to “Era Fujimori: “Por Dios, por la Plata””

  1. Há alguns anos, lembro-me de umas pessoas que diziam que o Brasil não tinha jeito. A única solução possível seria vender tudo para os japoneses, que botariam ordem no galinheiro.

    Quando Fujimori elegeu-se, lembro de um amigo dizendo “agora o Peru vai pra frente”. Além de levar os presentes às gargalhadas, a frase indicava que um moço de origem oriental poderia fazer a diferença. Grande equívoco. Não importa se o cara é negro (Obama), nordestino (Lula) ou loiro de olhos azuis (Marta), o importante é o resultado de seu governo.

    Na parte da corrupção, realmente temos muito a avançar. Um passo importante está sendo dado pela Transparência Brasil, buscando dar mais acesso às informações públicas.

    PS: parabéns pelo relato. Como sempre, muito claro e muito informativo.


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