Protógenes e a transferência

12mar09

São 14h30 de quarta-feira, 11 de março. Vejo na Internet a enquete “Opine sobre o futuro do delegado Protógenes Queiroz. O delegado deveria…”

São 5 opções. Duas claramente favoráveis ao delegado e duas claramente desfavoráveis. As negativas somam 23%; as positivas, 65%.

Corta para as 19h10 do mesmo dia. Goiânia. Estou a caminho da Universidade Federal de Goiás (UFG). O debate sobre combate à corrupção está marcado para as 19h. Eu sou um dos dois palestrantes, mas estou tranquilo com o horário. O outro palestrante é o delegado Protógenes Queiroz, da Policia Federal. Eu sabia que haveria atrasos.

Mas o que vejo quando chego ao auditório da Faculdade de Direito da UFG às 19h15 me deixa assustado. Em fila, jornalistas de rádio, TV, jornais impressos e portais aguardam para falar com o delegado-celebridade, que também tem que dar atenção aos estudantes-fãs, que, entre um jornalista e outro, se espremem para falar com ele.

Assim que as entrevistas terminam, todos os jornalistas vão embora. Eles não querem ou não podem acompanhar o debate. Querem declarações, apenas. 

Alguém me apresenta ao Protógenes. Ele está satisfeito, sorri abertamente.  Um garoto se aproxima e diz que está estudando “6 horas por dia” porque quer ser delegado da Polícia Federal. “Como o senhor”.

A organização do evento diz que eu e o delegado devemos nos sentar na primeira fileira do auditório e aguardar para sermos chamados à mesa. Tomamos nossos assentos. Súbito, uma garota, camisa do PSTU, toma o microfone e diz que vai fazer um gesto simbólico. E rasga a revista Veja. E grita palavras de ordem, de apoio a Protógenes. 

Quase todo o auditório aplaude e repete as palavras de ordem. O delegado se levanta e também aplaude. Eu fico na minha. Protógenes me olha de lado. O delegado não se aguenta e sobe no tablado. E abraça a moça. 

Vamos à mesa, e começa o debate. Protógenes, que tomou a cadeira à extrema-esquerda (veja você),  é o primeiro a falar. E fala de si mesmo em terceira pessoa. Quando usa a primeira pessoa, é sempre a primeira pessoa do singular. “Prendemos Paulo Maluf” dá lugar a “eu prendi Paulo Maluf”. E “eu prendi” Hildebrando Pascoal (para quem não sabe, trata-se do ex-parlamentar acusado de matar adversários a golpes de moto-serra), “eu prendi o banqueiro bandido Daniel Dantas“. 

(Engraçado que Paulo Maluf também usa anáforas em primeira pessoa: “eu fiz a Faria Lima”, “eu fiz blablabla”, “eu fiz” blablabla).

E Protógenes diz que é durão e que foi afastado porque chegou muito perto dos poderosos. E a cada frase de efeito, o auditório vai abaixo. Sim, Protógenes é uma celebridade. É um Che Guevara de Pindorama do século 21. Se alguém colocar fotos dele em uma camiseta, vai se dar bem.

Dois fatores, a meu ver, contribuem para essa febre. Em primeiro lugar, a sensação de impunidade e o grande volume de relatos sobre corrupção levam as pessoas a aplaudirem quem se coloca como um obstáculo visível a esse estado de coisas.

Segundo: isso tem a ver com a orfandade das esquerdas brasileiras, depois do Lula convertido ao Realpolitik.

Mas volto ao delegado. Já deu pra perceber que a figura pública do Protógenes não me causou simpatias. Verdade.

Troquei umas palavras com o moço depois do debate. Em privado, menos “cheerleader“, até que o delegado não inspira antipatias. Ele me pareceu um cara determinado, parece ter convicção das coisas. E parece saber muito. O delegado me adianta algumas coisas que vai dizer na CPI. Me dá dois lides. Sobre gente graúda. Uma história é verificável, a outra não. E repete o que havia dito no debate: no Congresso, se for mesmo chamado à CPI, vai dar “nome aos bois”

É, talvez ele seja, de fato, “o cara”. De certa forma, concordo com um grande jornalista amigo meu: pra encarar esse trabalho de pegar bandidos graúdos, tem que ser meio anormal mesmo.

agenciabrasil3Mas se o Protógenes (na foto, à frente do deputado federal Marcelo Itagiba, do PMDB do Rio, presidente da CPI dos Grampos) é “o cara” ou é um embuste, importa pouco.

O que tento fazer é identificar o papel dele no combate à corrupção para o imaginário coletivo. Esse papel me parece deletério. Às razões:

 

 

Fígado, brechas e transferência de responsabilidades

Há três razões pelas quais o papel de animador de torcida do delegado Protógenes Queiroz é deletério para o combate à corrupção.

Primeiro porque, embora aparentemente o delegado tenha de fato coletado vários indícios materiais ao longo de suas investigações,  ele coloca as coisas no domínio da doxa (opinião) e não no da episteme (conhecimento). No domínio da moral e da ética, do bom versus o mau.

Segundo porque , ao chamar para si o combate aos malfeitores, o delegado não incentiva ninguém  a usar arma alguma. É como se ninguém precisasse fazer mais nada.

(Justiça seja feita, Protógenes disse a certa altura que se quebrassem o sigilo fiscal de gente que está sendo processada cada um dos presentes ali poderia ser um investigador. Na minha vez, aproveitei essa brecha pra falar do papel que cada um poderia desempenhar no acompanhamento e fiscalização dos políticos. Mas isso foram 2 minutos em 4 horas).

E terceiro porque esse voluntarismo todo pode realmente tê-lo levado a cometer equívocos formais. Pode ser que descubram que o delegado não seguiu tal e qual rito ou bobagens assim. Mas, como sabemos, os bandidos graúdos podem pagar bons advogados, que vasculham o processo para encontrar brechas onde eles enfiam seus intermináveis recursos.

O meu receio é o de que a festa de Protógenes seja, no final, apenas isso: uma festa. E depois de toda a energia dispensada — em particular pelos estudantes —, se essa festa não der em nada vai ficar uma baita sensação de ressaca.

E nada mais.



3 Responses to “Protógenes e a transferência”

  1. 1 Renata Ferreira

    Toda essa explosão de entusiasmo vai terminar em cinzas porque se baseia apenas numa imagem simbólica, a do novo rebelde popstar ídolo da juventude. Mas tenho que concordar com o seu amigo: é preciso ser um pouco anormal mesmo para caça peixe grande no Brasil.

  2. Grande relato e excelente análise, Fabiano.

    Acho que Protógenes se considera um Dom Quixote, lutando contra gigantes para conquistar glória. Talvez não tenha lido o livro até o final, para ver a triste sorte do cavaleiro.

    É provável que a atuação do delegado leve mais à impunidade que a prisões. Nesse processo tem de tudo, desde análise nas coxas (ou nas doxas) até “frutos da árvore envenenada”. Os advogados vão fazer a festa.

    Aliás, mesmo que todos os culpados fossem presos, não bateria palmas para esse moço. Tudo tem que ser feito dentro da lei. Afinal, vale tudo contra a corrupção? Os fins justificam os meios?

  3. 3 Ricardo Meirelles

    Boa a análise, Fabiano.

    Posso estar enganado, mas tenho a impressão de que o papel de “animador de torcida” do Protógenes tenha nascido após a confusão toda do caso (prende Dantas, solta Dantas, prende de novo, solta de novo, etc.). Antes, o que existia era o delegado açodado, quixotesco (no bom e no mau sentido). Mas o festeiro, o “cheerleader”, é posterior, acho. Claro que isso não muda os problemas dessa postura, mas ajuda a entender que ela foi em grande parte uma resposta a um “cheerleader” menos arrebatado (e menos arrebatador), que se dirige a um público menor (porém mais influente), mas cuja postura é igualmente deletéria para o combate a corrupção — Gilmar Mendes.


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