E o “larjan”?*

25fev09

“Só há dois tipos de políticos: aqueles que levantam grana para fazer política e os que fazem política para levantar grana”. Assim, a jornalista Maria Cristina Fernandes, editora de Política do Valor, começa seu artigo de sexta-feira passada (infelizmente trancado por senha).

Convém tomar como certas as palavras da Maria Cristina, que sabe das coisas.

(Aliás, tenho pra mim que Maria Cristina Fernandes, Fernando Rodrigues e Alon Feuerwerker são a tríade de craques do jornalismo político no Brasil.)

Já que a grana é parte importante na vida de todos os políticos, sugere-se conhecer bem a origem das verdinhas.  Com o passar das eleições e a partir de iniciativas como o ÀsClaras (projeto da Transparência Brasil que identifica os doadores de campanhas),  a sociedade brasileira tem ficado mais atenta a essa questão.

E isso tem assustado os políticos. Tanto que nas últimas eleições os fanfarrões nos deram um drible. Grande parte das doações foram para os “comitês”, que repassavam o dinheiro para os candidatos. Assim, os caras lograram escamotear os doadores.

Mas estamos atentos. A tática foi denunciada por algumas boas matérias. Isso gerou reação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cujo presidente, Carlos Ayres Britto, disse em janeiro que colocaria o tema em discussão no tribunal “no início de 2009”. Ainda estamos esperando, sr ministro.

Ainda sobre dinheiro para políticos: deve ter me escapado, mas não li nos jornais paulistas nada a respeito da decisão do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) paulista, que na semana passada desaprovou as contas do PT referentes às eleições de 2004.

O TRE-SP disse inexistir comprovação para a origem de R$ 1,3 milhão. Não é pouca grana.

Enfim, com o cerco se fechando, nossas excelências agora pretendem mudar a lei em proveito próprio. Chamemos essa tática de “saída à Mozarildo Cavalcanti”  (o senador do PTB de Roraima elaborou uma PEC — Emenda à Constituição, veja você — que propõe incorporar os R$ 15 mil da verba indenizatória aos salários dos parlamentares; ou seja: quando a coisa aperta, vamos mudar a lei a nosso favor. Sarney parece ter gostado da idéia).

Pois bem, a saída à Mozarildo, no caso de granas para as campanhas eleitorais, se chama financiamento público exclusivo de campanha.

O governo Lula acaba de enviar ao Congresso um conjunto de projetos de lei que tratam da tal “reforma política”. Um dos PLs trata disso.

O ministro Tarso Genro foi chamado a justificar o Projeto de Lei 4634/09, o que estabelece o financiamento público exclusivo. De novo, Sarney gostou da ideia. O presidente do Senado disse que há “praticamente consenso” sobre isso e que este tema deve ser votado “imediatamente”

Convém ficar atento. Se baixarmos a guarda, a saída à Mozarildo vai ganhar duas paradas: aumento de salário dos parlamentares e aumento de arrecadação para as campanhas eleitorais.

Isso representará duas derrotas para o Brasil.

No caso do aumento de salários e do fim verba indenizatória (e sua recém-conquistada transparência), o revés é claro: acaba a possibilidade de rastrearmos malandragens e elevam-se os atrativos para aproveitadores entrarem na política.

No caso do financiamento público exclusivo: ficará impossível rastrear a serviço de quem eles estão e será jogado para o caixa 2 muita coisa que hoje é caixa 1 (ou alguém aí acredita que os grupos de pressão deixarão de se aproximar dos políticos só porque é proibido o financiamento privado?).

(*) O título deste post foi retirado do clássico “Amigo é pra essas coisas”, de Aldir Blanc e Sílvio da Silva Júnior



2 Responses to “E o “larjan”?*”

  1. 1 Evandro Spinelli

    Grande Fabiano. Legal mais um blog para discutir as coisas que realmente importam. Ainda mais feito por alguém que sabe o que fala.
    A propósito do “larjan”, tenho uma definição ainda melhor dos políticos e da política, dada pelo professor Antonio Vicente Golfeto, de Ribeirão Preto: a política é a arte de tirar dinheiro dos ricos e votos dos pobres e fazer com que os dois lados acreditem que você defende os interesses deles.
    Abraços.

  2. 2 N. Marshul

    Grande!
    Fiquemos vigilantes.


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